Guia para percorrer Labirintos

Guia para percorrer Labirintos
24 de julho de 2019 zweiarts

Guia para percorrer Labirintos

Resenha de um romance provocativo

Jonathan Felix de Souza [1]

Muita gente ainda se surpreende com o fato de um monge e teólogo como Marcelo Barros escrever romances. Até aqui ele escreveu quatro, sempre ligados às culturas negras e indígenas, ou ao desafio do diálogo entre culturas. Em Labirintos, o  seu romance mais recente, a maior parte da narrativa, assim como ocorria com o anterior “A festa do Pastor”, se passa em Camaragibe, cidade do grande Recife, onde nasceu o autor do romance.

Marcelo sempre gostou de contar histórias e escrever no estilo oral de quem conversa. Seu trabalho com grupos bíblicos em toda a América Latina, com lavradores na pastoral da terra e sua experiência de diálogo com pessoas de diversas igrejas e religiões aparecem em seus mais de 50 livros já publicados. Nesse, ele dá voz a diversos personagens. Alice, jovem jornalista recifense, é a principal narradora. Temos também notas escritas por Hans, velho africano que, em uma noite de chuva, aterrissou no aeroporto do Recife, dizendo ser um rei deposto de um país situado em uma pequena ilha da costa africana do Atlântico. E para homenagear o Cinema, do qual Marcelo gosta tanto, não podia faltar Ariel, irmão mais novo de Alice, estudante de Cinema e que interpreta a vida através de filmes e da sua paixão por mulheres bonitas. Através desses diversos relatos, somos convidados a penetrar nos labirintos íntimos de um grupo de Maracatu e Candomblé e, principalmente, de uma comunidade remanescente de Quilombo. É nesse ambiente cultural que somos envolvidos nos labirintos do misterioso desaparecimento do Mestre Ariano, da morte repentina de Mãe Flaviana e principalmente, do atentado a balas que o próprio Hans sofreu.

Quem se aventurar pelas páginas desse livro, se sentirá conduzido por esses labirintos de experiências fortes e sensibilidades diversas. Na página que abre o livro há uma citação do grande mestre argentino: “Nossa tarefa é a de imaginar um imenso labirinto  e descobrir o fio que o percorre como pista de saída” (Jorge Luís Borges).

De fato, essa citação é emblemática e nos oferece uma chave de leitura para conseguir percorrer os labirintos tantos dos acontecimentos e da vida dos personagens dessas páginas, como os da realidade brasileira, encontrando as portas de saída e de superação. Vocês que lerem essa história verão que o fio vermelho que nos conduzirá à saída é o acolhimento das diferenças e o diálogo, assumidos com afeição e ternura.

Fernando Pessoa dizia que “somos do tamanho do que vemos e não do tamanho de nossa altura”. Mesmo se, na altura,  somos pequenos e nos sentimos perdidos na imensidão do universo, somos chamados a ver , para além de todos os limites, o segredo de amor que permeia tudo e sentir o pulsar do coração do outro e do próprio Mistério que se chame Olorum, Dzambi ou simplesmente Deus. Podemos estar no vale, ou na solidão da cidade grande, onde se passa a história desse livro, mas nossa visão vai até o cume das montanhas e une abismos e estrelas. Por isso, podemos, para além de todas as contradições e os labirintos que a vida nos apresenta, manter a esperança. A quem insistir em ter respostas mais claras sobre o segredo da saída do labirinto, o coro da liturgia da rua responderá com Gonzaguinha: “Eu fico com a pureza da resposta das crianças: é a vida, é bonita e é bonita” [2].

Leiam:
Labirintos
Romance de Marcelo Barros.
Editora SENSO – Belo Horizonte, 2019.


[1] Fundador e Editor-Chefe da Revista Senso. Mestrando em Ciências da Religião. Membro do Comitê Estadual de Respeito à Diversidade Religiosa CDR/MG e Presidente do Conselho Estadual da Juventude de Mina Gerais..  Administrador. Especialista em Psicologia e Orientação Profissional, e em Gestão de Pessoas com Coaching. Atua principalmente com os temas: Espiritualidade, Inteligência Espiritual, Gestão e Desenvolvimento Humano.
[2] É o refrão de uma música brasileira muito conhecida e cantada: “O que é, o que é?” da autoria de Gonzaguinha.
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